Invade-me o tempo

Invade-me o tempo

Hoje vesti a camisola larga, as calças gastas e os ténis. Saí de cabelo molhado e com a pele que respira. Muitos são os dias que não a deixo respirar. Insegurança. Proteção. Não sei. Um heterónimo que criei que vagueia por aí, enfeitado, erradamente seguro. Às vezes devia dar-me nomes. Um por cada ser com que me atrevo a sair da porta. Tenho esta necessidade constante de ser muitas pessoas e muita coisa. De acertar e errar na escolha. Às vezes erro escandalosamente.
Canso-me de mim, como me canso quando repito o pequeno almoço de segunda para terça. E canso-me de ser muitas coisas também. E repito-me. E repito o pão de cereais com mel porque afinal é sempre aquele que mais me agrada. Invento uma rotina nova e tenho saudades da outra. Não a querendo. Crio um estado de exaustão insano, sem precisar dele. Sem ser obrigada a tê-lo.
Descobri que sou este ser mais frágil do que me sabia e cabia. Precisei de ser mulher e alguns anos para me saber. E a verdade é que preciso de mais alguns para me descobrir numas boas milhares de coisas. Só não queria ser frágil. Ser frágil faz-me sentir a estalar, tenho fendas nos ossos e fissuras na pele. Ser frágil causa-me lágrimas em horas incertas. A mim, que nada me foge. Porque se me foge é o caos. Não costumava ser frágil. Ou então não costumava ter tempo para o ser.
O tempo, este relâmpago de um raio. Ora corre. Ora pára. Ora foge. Ele que se apresenta enfeitado de tantas outras coisas. Talvez seja isso. Viciei-me em ti. Tanto, que em vez de viver-te, olho-te, copio-te. Com a tranquilidade doida de quem acha que te consegue apanhar. Mesmo nunca acreditando.
Está na altura de erguer o palácio com a pele que respira. Deixar os heterónimos para o Pessoa e vestir as calças gastas de sempre.

Gabriela Relvas

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“Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio terá qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?”

Fernando Pessoa

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