Vou dormir Senhor Consciência

Vou dormir Senhor Consciência

A Helena por aqueles dias deitava-se sempre cedo. Então, de meias de lã grossa nos pés e uma camisa obscenamente fresca, enfiava-se de rompante debaixo dos cobertores. Ela adorava os contrastes de temperaturas e tecidos. A seda da camisa de alças, o aconchego dos lençóis de flanela e os aquecedores de lã nos pés. Estavam para ela como uma baba de camelo depois de uma semana sem doces. O pico do verão, o pico do inverno e o aveludado do outono num só traje. Assim era e se perpetuava a Helena.

– Com as mãos a 20 centímetros do chão! Era obrigação minha colar a palma da mão ao chão! Mas não, fiquei ali a ver a impossibilidade vergonhosa das duas mãos chegarem ao chão, enquanto me caíam gotas de suor da ponta do nariz e da ponta dos cabelos. Eu ouvia as gotas a caírem no chão sabias? Estou velha.

E gargalhou, num livre e honesto rasgo de boca que lhe fazia um segundo queixo na cara. 

Não, a Helena não ficou gorda e velha entre a última vez que escrevi sobre ela e esta que vos escrevo agora. Mas nesse entretanto passou das 36 velas para as 37 e, como andava com uma dor lombar, achava-se velha. A Helena foi sempre dramática e não era do 6 para o 7 que a transformação se dava. Estava era com o queixo aninhado no peito, num relaxamento ímpar de si para si.

– Helena, mais 3 vezes no ginásio e uns bons alongamentos estás novamente elástica. Isso foram os saltos de 10 centímetros lembras-te? Não sabes andar de saltos.

– Mas eu sabia andar de saltos! Quando é que me aconteceu não saber andar de saltos? E porque raio é que isso haveria de me acontecer?

– Tu escolheste encostar os saltos por dizeres que não fazia sentido sofreres ao andares de pé!

– Hum. Não sei muito bem o que pensar sobre essa decisão.

– Não tenho opinião sobre isso.

– Achas que quando a velhice vem, vem assim de rompante? Nos obriga a deitar mais cedo, comer sopas e maçã cozida à noite, sossegar?

– Sabe-te bem sossegar Helena?

– Sabe.

– Então de que te queixas?

– Só agora percebi que tenho que parar. 

– Isso não é velhice Helena. Isso é sensibilidade.

– Sensibilidade?

– Sim. Só agora gostas de maçã. Antes colocavas-lhe açúcar. 

– Hum. Vou dormir Senhor Consciência.

Gabriela Relvas

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