Sal

Sal

O vento esqueceu-se deste lugar. Lembrou-se dele o sol e a serenidade de tudo o que é coisa de muita gente não tem. O vento não se lembrou, mas deixou o mar lembrar-se e soprar dele, suave. A sussurrar baixinho. E a minha vontade assim que te entro é ficar descalça. Fazer amor contigo assim que coloco os pés nus na tua areia. Correr. Percorrer-te numa passada alienada. Mais que alienada. Nesse êxtase que é ser alienado e feliz na possibilidade de perder-te. Tenho medo de perder-te. De virares vento. De te assombrares pelas nuvens carregadas e do teu mar cobrires-te para sempre. Não te ver mais os barcos nesse comprazer do baloiçar por ser impossível evitar a tua música. Medo de secares por o sol te brilhar tanto. 

Deixa-me antes apanhar-te búzios. E, sem os levar para casa, fazer com eles um desenho, acrescentar-lhe conchas e flores, uma pena perdida pela gaivota como bandeira de paz! De paz ou de amor. Amor por não seres solução de coisa alguma. Amor por seres.

E a tua areia virou pele. A aragem do teu mar, o sal do (teu) corpo. 

Gabriela Relvas

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