Oh Woody realiza a comédia dramática da minha vida – Diário mal arrumado dos dias tristes.

Oh Woody realiza a comédia dramática da minha vida – Diário mal arrumado dos dias tristes.

Um dia destes, entre uma chamada e outra, numa qualquer mesa de um shopping qualquer, a jantar qualquer coisa para cumprir a refeição, a minha amiga disse-me: “um dia havemos de ser mulheres de negócios”! E rimos que nem doidas do cenário nas nossas cabeças. Não sei qual foi o cenário dela, mas hei de perguntar-lhe. Quanto a mim, vi a mulher de negócios e ri dela. Primeiro por achar aquele lugar altamente inatingível e depois por não querer sequer tratar de negócios. A palavra negócios tem para mim um peso e um cariz comercial que não me agrada e para o qual não nasci, não fui dotada e acho que seria verdadeiramente péssima a executar. De notar que por este motivo estou claramente a anos luz de ser uma profissional de sucesso e sou verdadeiramente parva por não me atrever a mergulhar no medonho (porque me dá medo) mundo comercial a par da ideia que tenho, aquilo é uma arte! E ainda, deve ser uma profissão a sério!

Vou fazer aqui um intervalo só para vos dizer que esta crónica podia ser bem um filme à Woody. É dramática e diverte-me com o caos. Pelo menos a mim. Ando a implodir coisas, por isso vou dizê-las aqui assim como quem come rebuçados de fruta, um atrás do outro sem dar conta que já foi o pacote. É que na verdade os dramas são bem mais engraçados quando escritos, porque quando vividos não têm piada alguma. E como já me dei provas de que escrever alivia a alma…
Sempre soube o meu caminho, ou diga-se o sonho. Firme na paixão e na passada. Larga, assertiva e voraz. Quando estamos apaixonados somos cegos e somos burros. Faz parte e chega até a ser giro! Maravilhoso. Acreditar é das coisas mais bonitas que podemos ter dentro do nosso coração. Fá-lo cintilar boas energias. E é por isso curiosa esta linha que me foi aparecendo ao longo dos anos a separar-me de forma invisível desta paixão, que já pouco me apaixona. Até o que nos apaixona tem este poder de nos desapaixonar. Da mesma forma que nos desapaixonamos por pessoas. Pode acontecer o mesmo com os sonhos, só que eu não sabia!
A maturidade é uma coisa muito interessante, que se renova. E renova. Da mesma forma como a nossa assinatura evolui no tempo. E a vaidosa da maturidade tem esta coisa de te fazer rir ou chorar de ti próprio. Encaixa-te uns olhos novos no rosto, faz-te uma ressonância magnética e envia relatório com o teu nome e morada (depois de te ter cortado às fatias e ver do que és feito). Eu tenho-me enviado relatórios e não os tenho lido. Culpa minha. Não abro a caixa do correio. Deixo aquilo apinhar e depois vivo na sensação de uma vida desarrumada. Não quis estar atenta aos sinais mas agora que eles se esbarram em mim como tanques de guerra não posso dizer que não os vejo. Deixar partir um sonho é também sinal de maturidade. A vida é gira não é? A sacana é gira mas eu às vezes zango-me muito com ela.
Tenho ganas de embarcar noutros lugares e em novos sonhos. Este, que tinha, gastei-o, por cansaço. Foram muitos e muitos anos. De mais até! Agora que te quero menos… não me venhas bater à porta sim? Combinado? Se vieres vem devagarinho e de outra forma. Nã venhas vestido de vedeta de croquete ou de estrela de novela. Vem real. Vem humano. Vem com um palco nos pés e uma plateia em jeito de remendo. Não venhas a tempo inteiro.
Agora que me desprendi de ti deixa-me falar de outras coisas! É que absorvias-me de facto bastante. Lembrei-me outra vez da mulher de negócios. E ri outra vez. Curioso, a maturidade tem-me ensinado que não nos devemos rir de certas coisas.
Não sei se quero ser mãe. Veio-me agora isto à cabeça como um rebuçado de fruta à boca! Ao mesmo tempo que não sei, gostava. Um dia. Ou não. Sei lá… gostava. Gostava que a pequena criatura crescesse com sonhos vincados. Curioso! Gostava que tivesse este desapego às coisas que tenho. Que as suas ambições fossem imateriais como as minhas, mas adoraria que não fosse frágil. Lembrei-me disto agora… depois de ter perguntado a uma criança o que queria ser quando fosse grande e ela me ter respondido: “rica”. Disse-lhe que ser rico não é uma profissão. Disse-lhe que a nossa profissão surgia dos nossos sonhos. Curioso!
Depois de todos estes dizeres, vou vestir a saia que fui buscar hoje à loja dos arranjos. A bainha foi 1,50. No shopping tinham-me pedido 6,30! A vida tem mesmo lugares diferentes. Às vezes o que faz a diferença é talvez a porta. Mas o caminho, esse, vinca a nossa personalidade, faz-nos sentir coisas e às vezes para surpresa nossa, pede mudanças.
Tudo começa no sonho e tudo se transforma no caminho.

Volto a dizer, a vida é gira, mas às vezes, zango-me muito com ela. Estou no meu direito. Amanhã a ver se te dou um beijo.

Gabriela Relvas

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