Metamorfose

Metamorfose

Regressar a casa pelas 19h passara a ser a mais dura tarefa do dia. Era um coração com vontade de outros mundos que não sabia, sem consciência que os precisava. Em consequência, todas as desculpas para demorar o confronto com aquelas paredes pareciam perfeitas. Mas escrever era a desculpa que não era desculpa. Escrever no caderninho que um dia ia virar um livro de tão rechonchudo das marcas de caneta que transformavam a espessura das folhas marfim numa espécie de estágio embrionário. E escrever fora sempre sem o telhado que a abrigava à noite para dormir. Aquele telhado era por demasiado vivido para poder gerar uma vida nova.

Havia uma saudade profunda e angustiante daquele jorrar de palavras sem esquema montado que em tempos tivera. Deixar acontecer sem ponto de partida nas imensas possibilidades da folha marfim, a que o narrador gostaria de chamar, folha branca. Só que a folha era marfim e os factos aqui relatados têm por base a verdade do que acontecia, mesmo os não relevantes. Escrever não acontecia. Ela era um corpo atulhado de coisas sem capacidades pelos bloqueadores acionados em todos os órgãos.

Ao cruzar o avião que lhe passava na nuca por cima do tejadilho, enquanto percorria a ponte anestesiada de vazio, pensou na possibilidade de não existir. O mundo aos seus olhos ficara igual, se não um tanto melhor. As coisas que nela moravam àquela hora do dia eram de uma toxidade hiperbólica e com toda a certeza não fariam bem ao ambiente que andava também pelas ruas da amargura. O carro acabara por parar frente ao mar, como todos os carros que param frente ao mar quando andam também pelas ruas da amargura. Uma espécie de frustração  acentuou o amargo do momento pela falta de originalidade. E uma frustração para o narrador que queria dizer automóvel em vez de carro. Chorar era igualmente um não original, mas elas escorregavam desavergonhadas pelo rosto, gordas e inesgotáveis. A manete das mudanças, que já não via limpeza há muito, foi lavada com a mão que sacudiu a lagoa formada por cima dos pequenos números gastos. 

Ao vislumbrar a água abundante na palma da mão por entre as lágrimas metralhadoras que lhe saltavam dos olhos, começou a rir. Desmesuradamente. O jorrar de lágrimas era o texto por dizer. Palavras. Saíam todas. Uma a uma. De repente o corpo cheio de coisas inócuas revelava-se um terreno fértil para todas as criações. O segundo avião avistado naquela tarde, pós inundação, ganhou ali as imensas possibilidades da folha marfim. O romance, as primeiras letras.

Gabriela Relvas

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