A Ilha da Formiga

A Ilha da Formiga

O narrador, que sou eu, ficou um tanto desanimado ao perceber que a Ilha da Formiga era apenas Ilha da Formiga por ser formada por casas pequeninas. O narrador, que sou eu, assim que ouviu da boca da sua mãe enquanto comia pão de alfarroba com azeite que mais lhe sabia a chocolate, “eu nasci e cresci na Ilha da Formiga”, parou num sorriso gaiato e de esguelha à espera de mais. A boca ficou-lhe aberta nessa imensa felicidade de quem não conta com um conto às 8 da matina. Mas não havia mais, ponto.

Não sei se é de me formigarem mil pensamentos diferentes à velocidade que as palavras saem da minha e das outras bocas. Acho que já posso deixar o narrador. Todos já sabem que sou eu. A Ilha da Formiga, para mim, dita uma só vez, pareceu-me dona do mais impremeditável conto. Só que não era. Acontece-me então assim, ultimamente, contar que as coisas me contem. Contar que me acrescentem. Tem sido coisa inevitável esperar malabarismos do que não tem.

Deixem-me voltar ao narrador, na tentativa de não me parecer tão eu e ficar mais à vontade para falar-me. Talvez por nada particularmente emocionante acontecer, ela, conta que aconteça. Então, à mínima oportunidade, elabora. A Ilha da Formiga estava-lhe atravessada! “Um nome cheio de potencial para ser uma vida inteira!”

Ela, de tão calada, avariou. Desaprendeu a falar e fica a ver os pensamentos um a um, um contra o outro, todos contra todos. Atropelamentos e chacinas. Chacinas só porque ela é dramática.

Quando acontece falar, sai-me com mais insegurança, por isto que o narrador contou. Por andar calada. Não sei como acontece ficarmos calados. Ficarmos mais calados. Acontece comigo, não quer dizer que me fale menos, pelo contrário. Calada falo-me mais. Só que neste lugar, mudo, os pensamentos parecem coelhos a multiplicarem-se. A esperança que me contem contos vem da necessidade de matar estes, para dar lugar a outros, vindos de outras tocas. Coelhos de outras cores.

Aprendi esta semana que rio como pontuação. Disseram-me. Poderá dar ar de vazio. De tonta, disseram-me. Eu respondi, “hum”, e ri, como pontuação, depois do meu discurso mudo. Falar não seria boa ideia, até porque desaprendi a falar, ia perder antes de começar. Mas o meu pensamento foi fortíssimo. Multipliquei coelhos de cores diferentes. Quando aprender a verbalizar isto vou meter medo. Quando sair com som.

Talvez a Ilha da Formiga dê nome a isto. Este estado de isolamento com mil pensamentos trabalhadores cheios de fome de voz. 

Por agora formigam-me, alguns fazem-me cócegas e outros fodem-me o juízo.

Gabriela Relvas

Fiquem com a banda sonora que me serviu à crónica! 😉

“Don’t tell me that I won’t
I will
Don’t tell me that I’m not
I am
Don’t tell me that my master plan
Ain’t coming through
Don’t tell me that I won’t
I will
Don’t tell me how to think
I fell
Don’t tell me cause I know what’s real
What I can do”

 

1Comment
  • Rui Ferreira
    Posted at 08:49h, 15 Fevereiro Responder

    Anda estou estou a “beber” este. Mas eu também sempre “trabalhei a carvão”! (Desculpa). Tento entender se este era o lugar onde precisas estar para que saiam “os coelhos”. Pelo menos temos sempre fauna nos teus contos! 😉 Nunca serás tonta por rires com ou sem pontuação! Lembrá-los sempre que ÉS uma artista, e que isso tudo faz parte do teu espetáculo! Que sejam imensidões essas coisas todas que querem sair de ti! Também me pertencem! Um beijo (porque disso não é como os coelhos)! 😘

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