CRÓNICAS E DEVANEIOS


Daqui a precisamente 5 dias faço 35 anos e é inevitável o estacionário sobre a paisagem. Descobri o nome da manobra estes dias, estacionário. Aquilo que os helicópteros fazem quando estacionam nos céus. Ficam ali, pendurados no ar, sem sair do lugar, a ver. Tenho...

Depois de uma noite bem dormida, provocada pelo bendito excesso de álcool, a Helena acordou com vontade de voltar ao sono. Dormir profundamente já não fazia parte dela há largos anos e, por isso, era de aproveitar a maré enquanto ia boa. Foi aí, nesses...

Senti o umbigo colar-se às costas e esse estado atípico de mim assustou-me. Disse-me então, “tens que comer”, nesse repente em que ouvi a sala a ouvir-me a barriga nada discreta.  Saí. A animosidade não era a perfeita. A vontade de comer também.  Não me lembro da última...

O barulho do mar acabava na areia, feito de camadas harmoniosas e insistentes no verbo acabar. “Fevum… fevum…”  Os tempos do mar em harmonia com a serenidade do dia a arrefecer. “Quando a harmonia é tanta parecem não existir detalhes, mas sim quadros magníficos de cor”....

- Há muito que não escreves um poema Helena. - Acho que só devemos escrever um poema quando ele nos sai. - Queres explicar? - Não. Mas sabes que vou explicar. - Porquê? - Porque sinto esta espécie de agonia quando deixo coisas por fechar. - É só uma pergunta Helena....

Cheirava a terra molhada e a mesa vestia-se de linho. A casa, velha, pronunciava-se por ali, naquele lugar de pescadores, misturada com as outras, mas diferente. Às 20h daquele dia, que queria escurecer, os termómetros registavam 29 graus e a Amélia apanhava as gotas que...

O telemóvel da Helena mal tocava. E, quando tocava, o toque parecia-lhe até menos audível. “Antes um vigoroso jovem cheio de testosterona, agora uma mulher no pico da menopausa”, dizia ela. A solidão da Helena persuadia-a a dar vida, ou pouca vida, às coisas que...

- Helena? - Hum? - Na cama não se resolvem as coisas… ainda por cima tu não sabes dormir à tarde. Não sabes, lembras-te? - Nem gosto. Se por milagre eu pudesse ver um desejo realizado, sabes o que pedia? - Não Helena. Não sei. Desconhecia que gostavas que...

Meu amor, como te sentes hoje? Conta… como foi o teu acordar esta manhã? Que primeira imagem foi essa que viste quando abriste os olhos? Acordaste com a luz do sol a furar as frinchas da janela? Sabes, sinto que sim. Hoje, aqui no meu quarto, do lugar...

E as ideias não me param na cabeça. Pairam. Perdi o foco. Não me concentro em nada e em tudo me perco. O sorriso não me sai dos olhos, dos lábios, do queixo e das bochechas que se comportam separadamente do meu todo. É como se isto...

E da paixão eles nunca foram. Da paixão, dessa terra abandonada onde quem tinha a sorte e a coragem de entrar era pássaro que assobiava alto. Tratavam-se por “amor”. - Amor. - Meu amor. Miseráveis. O cartão de convite da relação foi negociado logo ali, no primeiro café. - Carro? - Mercedes...

Como se sente o Amor? Como será essa coisa que nos transforma. Dizem-no. Dizem tanta coisa. Eu já não me lembro. Como poderei eu dizer que não me lembro? Mas não me lembro. Como é? Ontem disseram-me, “faz-nos cócegas”. Faz? Faz mais o quê? Cócegas não me...