CRÓNICAS E DEVANEIOS


Aprendi a gostar de papel no tempo quando. Quando estava nesse estado imperceptível de ficar maior. Quando fico maior hoje e amanhã. O meu pai assegurou-se de me passar isso, não fosse ele O transformador de papel, que das folhas que não terminam, faz com...

A Helena por aqueles dias deitava-se sempre cedo. Então, de meias de lã grossa nos pés e uma camisa obscenamente fresca, enfiava-se de rompante debaixo dos cobertores. Ela adorava os contrastes de temperaturas e tecidos. A seda da camisa de alças, o aconchego dos lençóis...

Quando é amor, nós sabemos que é amor. Eu acabei de escrever isto a acreditar e a não acreditar de todo. Talvez acreditando mais do que desacreditando. Só que nunca é. Já me perguntei vezes sem conta sobre a minha incapacidade de me apaixonar. Estarei...

Ouço-o por muitas vezes, na boca de tantos que conheço mal, de muitos meus próximos e dos poucos que me estão altamente colados: “a vida mostra”, “a vida ensina”, “tinha que acontecer”, “estava escrito”, “era destino” “estava predestinado”, “eu sabia que ia acontecer”. Não me...

Daqui a precisamente 5 dias faço 35 anos e é inevitável o estacionário sobre a paisagem. Descobri o nome da manobra estes dias, estacionário. Aquilo que os helicópteros fazem quando estacionam nos céus. Ficam ali, pendurados no ar, sem sair do lugar, a ver. Tenho...

Depois de uma noite bem dormida, provocada pelo bendito excesso de álcool, a Helena acordou com vontade de voltar ao sono. Dormir profundamente já não fazia parte dela há largos anos e, por isso, era de aproveitar a maré enquanto ia boa. Foi aí, nesses...

Senti o umbigo colar-se às costas e esse estado atípico de mim assustou-me. Disse-me então, “tens que comer”, nesse repente em que ouvi a sala a ouvir-me a barriga nada discreta.  Saí. A animosidade não era a perfeita. A vontade de comer também.  Não me lembro da última...

O barulho do mar acabava na areia, feito de camadas harmoniosas e insistentes no verbo acabar. “Fevum… fevum…”  Os tempos do mar em harmonia com a serenidade do dia a arrefecer. “Quando a harmonia é tanta parecem não existir detalhes, mas sim quadros magníficos de cor”....

- Há muito que não escreves um poema Helena. - Acho que só devemos escrever um poema quando ele nos sai. - Queres explicar? - Não. Mas sabes que vou explicar. - Porquê? - Porque sinto esta espécie de agonia quando deixo coisas por fechar. - É só uma pergunta Helena....

Cheirava a terra molhada e a mesa vestia-se de linho. A casa, velha, pronunciava-se por ali, naquele lugar de pescadores, misturada com as outras, mas diferente. Às 20h daquele dia, que queria escurecer, os termómetros registavam 29 graus e a Amélia apanhava as gotas que...

O telemóvel da Helena mal tocava. E, quando tocava, o toque parecia-lhe até menos audível. “Antes um vigoroso jovem cheio de testosterona, agora uma mulher no pico da menopausa”, dizia ela. A solidão da Helena persuadia-a a dar vida, ou pouca vida, às coisas que...

- Helena? - Hum? - Na cama não se resolvem as coisas… ainda por cima tu não sabes dormir à tarde. Não sabes, lembras-te? - Nem gosto. Se por milagre eu pudesse ver um desejo realizado, sabes o que pedia? - Não Helena. Não sei. Desconhecia que gostavas que...