O vestígio que inebria – Sensualidade.

O vestígio que inebria – Sensualidade.

Apesar da minha forte preferência pelo que me cobre ter esta imagem amarrotada, larga e pelo sapato que me deixa andar sem cara de concentração na calçada (tudo porque seria certo cair muito mais vezes que uma Jennifer Lawrence na passadeira vermelha), ainda não desisti de mim nessa versão que me coloca mais alta, mais senhora, mais sensual. E digo ainda, porque o tempo vem com varizes e dores nas pernas que dificilmente me assegurarão um passo assertivo em cima de saltos sem parecer ridícula e uma ameaça à minha própria (sobre) vivência. Mas até lá ainda falta e eu tenciono queimar os cartuchos todos, enquanto os há. Essas tiradas que enganam a vida, quando ela está decidida a ser apenas vida e nós passamos-lhe a perna. As tiradas que às vezes passam pelo batom vermelho e mudam o resto do dia.
A boa notícia é: aos 80 poderei não calçar o sapato, mas posso passar o batom.
A sensualidade é uma teia de sensações que surge em qualquer lugar e faz-te viajar. E a sensualidade é por isso precisa. Merecemos viajar nas sensações, nos pequeníssimos detalhes. É-nos merecido e devido, porque afinal ainda andamos cá um bom tempo. Precisamos de sentir coisas, mergulhar na teia, apanhar o foguetão ou o barco. Ir. Ficar lá. Voltar depois de sentir. E ir outra vez quando quisermos.
Mas na verdade, nem sempre as cartas saem da cartola. A sensualidade vem de dentro para fora e depois, nos pequeníssimos detalhes, de fora para dentro. Não basta carregar no botão mágico para fazer magia.
Há quanto tempo não te sentes sensual? Quando é que te esqueceste que o eras? Quando foi a última vez que paraste para olhar para ti e tiveste esse tempo contigo, o de ver o pormenor? Para ti. Só para ti. Para mais ninguém.
Se “a sensualidade é o intervalo entre a luva e o começo da manga”, como o diz Lobo Antunes, quando é que o teu movimento de pegar na chávena de café, foi aos teus olhos, sensualidade. Não aos olhos dos que te olham, porque esses agora não interessam nada.
Onde tens as luvas? Onde as perdeste? Quando sentiste a delicadeza dos collants nos teus dedos?
A mulher é um ser sensual por natureza. No delicado da cintura, no recorte do peito ou do ombro, na voz que lhe deram mais doce e na pele mais macia. E se é da natureza, não há como negá-lo. Não é para camuflar ou esquecer. Nem de todo para castrar! É uma qualidade para ser explorada. Da mesma forma que um escritor gosta de escrever e por isso escreve.
E eu, porque me esqueço desse tempo comigo por vezes, desabafo em jeito de lembrança. Não me quero esquecer. Não me posso esquecer. Não se atiram qualidades intrínsecas para baús que se empurram para o canto de mais difícil acesso do sótão. E não me quero esquecer sobre tudo quando for mais velha, quando me olhar no espelho e reparar que sou “avó” das mulheres das capas das revistas.
É que a sensualidade é este dom intemporal que ultrapassa a beleza. É o vestígio de ti deixado em perfume numa onda que inebria. Com esta tendência de deixar mais rasto com os anos. Não te desapegues dela. Por ti.

Gabriela Relvas

Não é vergonha. Não é pecado. Não é superficialidade. É não ter medo de ser mulher.

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2 Comments
  • Cátia Aldeagas
    Posted at 17:52h, 25 Fevereiro Responder

    E se é coisa que tu não tens Gabriela Relvas é medo de ser mulher. Parabéns pelas palavras, pela sensibilidade e pela sensualidade claro ????

    • Gabriela_Relvas
      Gabriela_Relvas
      Posted at 16:15h, 02 Março Responder

      Obrigada por estares sempre de mãos dadas comigo!

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