Dos dias que se fazem

Dos dias que se fazem

Parei de escrever e isso provoca-me uma angústia imensa. Vou começar assim, com os pontos da situação. E a situação é feita de várias situações, estando eu por isso, neste momento exato, a não saber empalavrar as coisas. Tenho-me lembrado das “palavras impossíveis de escrever” de Cesariny, em You Are Welcome to Elsinore. Tenho-me refugiado nos “emparedados”. Que poema tão bonito, aquele.

Quero com isto dizer que, abdicar do que nos apaixona não é mais do que assassinar o nosso dever de falar. Temos o dever de falar. Ou seríamos todos uvas do mesmo cacho e mais do mesmo sabor. Seríamos e somos dias que passam. E o pior é que somos e vamos sendo. Come-se e vai-se para a cama e viver é muito isto e mais nada. A complexidade e capacidade da nossa mente automatizou-se. Vivemos deste vício pavoroso e de vez em quando metemos férias.

Não sei se está certo ou errado, tenho as dúvidas todas do mundo. Mas a bem da honestidade sei que temos medo da nossa complexidade. Preferimos as nossas camadas superficiais ao resto, ao nosso estado incrivelmente bruto. Injetamos então nas veias uma verdade fabricada e acreditamos nela, porque para olhar para o mais profundo de nós é preciso ter coragem.

E foi com medo que olhei e vi o que suspeitava.

 
Gabriela Relvas

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2 Comments
  • Paulo Nunes
    Posted at 18:43h, 17 Dezembro Responder

    “Come-se e vai-se para a cama e viver é muito isto e mais nada. A complexidade e capacidade da nossa mente automatizou-se. Vivemos deste vício pavoroso e de vez em quando metemos férias.”

    Haverá uma imensidão de seres que entendem perfeitamente o que dizes.
    Tenho dias de insónias em que a minha mente não pára de construir frases. Tenho a infelicidade de muitas vezes não ter tempo de as escrever e desenvolver. E a vida de adulto que me levou do mundo humano de criar. Recordo-me em algumas dessas noites que em menino aprendi a ler e escrever e quis ser escritor. Um anuncio de máquinas de escrever fascinava-me e nunca a pude ter. A vida ocupa-nos demasiado tempo para que possamos ser humanos, pessoas e almas.

    Um bom natal, um bom ano novo e gosto de ler o que escreves.

    Beijinho

    • Gabriela_Relvas
      Gabriela_Relvas
      Posted at 21:16h, 17 Dezembro Responder

      Paulo, é sempre bom receber as tuas palavras. Sabes o que te digo, a vida tem que ser mais. Eu vou à procura dela, com a consciência que o caminho poderá ser ainda mais duro. Ainda assim, vou.
      Um beijinho

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