Adeus não se diz

Adeus não se diz

Acordaste nesse dia normal. Tinhas as meias perdidas no fundo da cama. Por esses dias tiravas sempre as meias enquanto dormias.

Sabia-te bem deslizar um pé no outro enquanto acordavas melhor. Sabia-te bem girar sobre os lençóis e entregar os braços aos…

 –  Aos lençóis que não toco com os pés no fundo da cama. Como vão lá parar as meias se não chego lá com os pés?

Ouvia-te rir enquanto as tentavas apanhar.

Nesse dia normal, no primeiro de todos que não pensaste nele. O teu Amor, o que apelidavas de “inacabável”…

 –  “O inacabável acaba num dia normal”. Disseram-me isto uma vez. Nunca mais me esqueci.

Nesse dia normal, esqueceste-te que te disseram que “o inacabável acaba num dia normal”. Tu! Tu que tanto esperaste para ver esse dia normal raiar diante dos teu olhos.

 –  Raiar? Raiar, não. Não me lembro em que dia foi. Queria lembrar-me. Queria só ter chorado uma vez mais e que no céu estalassem trovoadas. Gritos de Deuses. Marés em revolta.

Apanhaste as meias, correste para a cozinha. Acordaste esfomeada, como acordavas sempre por esses dias e foste descalça. Esqueceste-te propositadamente das meias em cima da cama ainda quente de ti. Da janela escancarada da cozinha, ficaste ali, a ver o sol raiar.

Esqueceste-te que tinhas fome. Continuaste ali.

Nesse dia normal não choraste Helena.

E tu, tonta, gostavas de ter chorado.

 

Gabriela Relvas

 

 

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